Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 960 vezes em 2014. Se fosse um bonde, eram precisas 16 viagens para as transportar.

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Sobre o dia de hoje deste ano de agora

Eu tenho um pai. 

E muitos outros. 

Sou filha, afinal.

E muitas outras.

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Dias de passagens

Se quisermos, vivemos dias bastante especiais nessa época de celebração religiosa.

São dias de silêncio. De introspecção.  De música sacra da maior qualidade; música atemporal.

Dias de saudade. De expectativas. De ficar junto, ou de se isolar.

Dias de repensar a vida. De renovar, de reciclar.

De descansar.

De comer chocolate e, talvez, ir à missa, ao culto, à ilê.

Ou de nada disso.

Nada disso, se for isso o que queremos.

De minha parte, optei pela nada mística experiência de renovar meu espaço doméstico.

Viajar e me divertir. Sozinha e sem sair de casa.

Com isso, reinventar a vida. A cotidiana, que – se a gente permitir – vai se tornando a mais chata de todas.

Assim, morrer e ressuscitar.

Da inércia,  do desânimo,  da mesmice.

E não é que tá sendo bom?

Então,  boa Páscoa,  Pessach,  Passagem.

Atravessei o mar morto. Porque, sobretudo, estou viva.

No melhor lugar do mundo: aqui, agora.

Como cantou o Gil; como disse o Osho; como quis Javé, quando, dizem, criou tudo o que existe.

 

 

 

 

 

 

 

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Minha querida amiga,

Do seu sorriso.

De nossas conversas sobre política; de que sentávamos lado a lado pra trabalhar; de que trocávamos impressões sobre nossos atendimentos e relatórios; das vezes em que te dei carona até sua cidade; da sua letra; dos termos e expressões que aprendi a usar com você; da sua presença calma, silenciosa e tão forte.

Do seu olhar. Do seu estojo marrom, do seu bom gosto pra se vestir, da sua elegância; da sua vaidade sem peruíce; do seu amor pelo povo; da sua sensibilidade; da sua determinação e bravura pra lutar contra qualquer injustiça; da sua presença amorosa, solidária e cuidadosa, naquelas vezes em que desabei na sua frente. Da sua confiança em compartilhar comigo algumas de suas preocupações; da sua voz.

Das suas expressões faciais, inequívocas. De quando eu chegava mais cedo e ia junto almoçar com você e nossas colegas; de quando você usou aquela peruca que achei linda; de quando você decidiu abolir a peruca; de quando você voltou das férias em Minas, radiante e renovada; de quando participamos juntas do Seminário, logo que te conheci; do como você estava contente com seu cabelo voltando a crescer.

Do seu jeito de parar, esperando a gente adivinhar alguma coisa. De como eu gostei de você, desde o primeiro dia; do quanto você me tratou bem e com tanta atenção que parecia que eu era a pessoa mais especial do universo; de quanta afinidade descobri ter contigo; do como você às vezes parava pra pensar e pesar as palavras que iria dizer; do cuidado como você as dizia; das coisas engraçadas e do seu fino humor.

Da sua amorosidade. Dos abraços trocados quando férias ou momentos de ausência prolongados, porque no dia a dia o bom dia estava de muito bom tamanho; das discussões que você conseguia que não descambassem pro embate infrutífero; do seu guarda-chuva. De você rindo e me ensinando a enrolar os fios emaranhados dos gadgets que eu inventava trazer todos na bolsa.

Da sua exuberância contida. De nós cantando Clara Nunes, você me corrigindo pedaços inteiros da letra; sua voz afinada e bonita; seu sorriso comovido em situações em que compartilhávamos ternura, amizade, afeto, amor, companheirismo. De tantas coisas, tantos momentos, tantas cenas…

Lembro de tudo e sempre vou lembrar, Fran.

Franzinha. Francisca.

Nossa mineira guerreira, grande companheira. Sua partida ainda é muito recente pra que a gente consiga guardar no peito tantas lembranças, tanta saudade, sem extravasar um rio de lágrimas. Mas tenho a certeza de que, assim como na minha, a sua chegada na vida de cada pessoa que te conheceu foi um acontecimento, um evento. Solene, grandioso, rico de sentidos e de humanidade. E cheio de humana intimidade. Pois foi assim que você viveu sua vida e quem te conheceu sabe muito bem disso. Disciplinadamente coerente com seus princípios, suas crenças; com o que valorizava. Solidária. Atenta, antenada. Solícita. Forte. Personalidade marcante. Presente. Necessária. A rigor: indispensável.

Talvez eu devesse ter-me feito mais próxima e presente na sua vida, nos últimos tempos, como eu bem desejei. Mas me acomodei na impotência, na desculpa da distância geográfica, na transferência da responsabilidade pessoal e intransferível de cuidar de quem se ama, de cuidar do amor por quem se ama, na eterna justificativa de estar afogada em tarefas que nunca acabam. Só que agora, como você talvez dissesse, não é mais hora de chorar pelo que não foi feito, pelo que não deu, pelo que precisava ter sido dito ou feito. Agora é hora de, imitando você, continuar a celebrar a vida. Sendo cada um a seu modo, como você gostava de garantir.

Agora, e aqui, ao meu modo, e com imenso amor, celebro sua vida. Seus dias, sua passagem por essa existência, querida e amada amiga. Sua passagem por minha vida. Passagem relativamente breve. Mas profundamente transformadora. E isso não me vai sair da memória, mesmo se esta pretender um dia me trair. Lembro de tudo, Fran. E sei que sempre vou lembrar. Porque acredito que o amor… o amor é aquilo de que alguém jamais se esquece.

Maria Francisca Cardoso Sampaio (1958-2014)

Maria Francisca Cardoso Sampaio [1958-2014]

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Beijo beijo

Beija alguém quem gosta.

A não ser Judas, falsas ou participantes de rituais beija-mão, de toda espécie.

Se dois homens se amam, se beijam. Assim como duas mulheres, um casal, mil casais.

Pais e filhos; netos e avós. Amigos. Namorados. Velhos apaixonados. Por vezes, os inimigos.

Beijo é beijo. E o único adjetivo que serve pra beijo é beijo.

O resto serve só pra dizer de um beijo que ele não é tão beijo assim.

Mas que beijo deixa de ser beijo, quando só beija quem quer ou pode beijar?

Dois homens se beijaram na tv.

Devíamos nós nos beijar também.

Mais vezes.

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Anti-blog

Dizia-se, há algum tempo, que uma anti-propaganda funcionava melhor, muitas vezes, que seu desavesso.

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De mais verões

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Noites mornas, de um vento broxa

Meu gozo explode em sua boca

Que sabe a rocha

Há quanto tempo nós dois rimamos

Sexo sem nexo complexo novelo

Não vela o chão, não vale o pão

Minha rosa murcha no jardim

Você sobre mim desaguando um mundo

Desigual, cheio de fome, lixo e miséria

Quanto tempo custa a passar assim

Até que você me venha sem mim?

Até que, sem filhos, herdeiros, substância

Eu ponha a mão nas suas loas, única possível herança?

Tudo em que creio, o que você creditou em conta

Foram reminiscências, fugazes lembranças,

Pensões, vagas, meretrizes

Foram umas indecências, vorazes crianças

Paixões, magras, atrizes

Serão elas, espero sem certeza, a engolir Cronos

A tirá-lo do trono e vomitar

De mim, sem surpresa, o uivo,

a fera presa; meus incontáveis ais.

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Amada Sampa

Sempre Sampa

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I.

Mais que qualquer casal bodas de ouro, mais que prata e mercúrio no dente: duas datas – uma em janeiro, outra em maio – e nós nos ligamos pra sempre.

Não, não tem jeito, esteja eu cá ou acolá. Este dia será sempre feriado no meu peito. Festa, solenidade, reverência, paixão, saudade, nem sei direito.

Amada. Mil vezes amada, adorada, eterna e minha. Sampa querida. Meu solo, meu destino, legado, memória minha. Gravada na pele, nas rugas, nas fotos da gente, ainda pequenininha.

II.

Amor meu [clipe – Vânia Bastos, “Paulista”, de Eduardo Gudin]

Sampa é de todos e de ninguém. Por sorte ou sina, nasci no bairro da Liberdade. E assim livre sou sua, pertenço às suas pedras, às suas ruas. Pertenço à sua gente, às suas favelas, aos seus imigrantes, seus nordestinos. Pertenço ao sorriso e à raiva daquelas moças e dos meninos. Sou dos ônibus lotados, dos carros parados, da desistência de usar a buzina. Pertenço ao tempo em que se andava de madrugada por ruas desertas e a gente nem tinha medo. À Avenida Paulista interditada pela passeata dos moços, deitados em pleno asfalto. E quase não tinha carro importado pra passar por cima. Tampouco bicicleta ou ciclovia. E tudo o que a gente não via também estava lá. São mais de quatro séculos e meio. E você respira vitalidade. E alegria.

III.

céu azul, prédios azuis

Um dia me travesti de “céu azul de Sampa” pra conversar no chat. E descobri que tem gente – acreditem – que acredita cegamente que em Sampa nunca tem céu azul. Eu ri. Porque o azul de Sampa é mais azul que o melhor azul de um lugar limpo e sem luz artificial. Porque Sampa, quando está azul, brilha e pulsa e vibra e lateja mais que o frenesi cotidiano, tão decantado por quem não vive ali. Não sabe de seu azul, do por do sol da zona oeste, de suas nuvens, seus cinzas, seus cafés, seus feriados e livrarias, do cinema, dos botecos. Do café da manhã na padaria, lendo o jornal e encontrando por acaso o vizinho que é artista ou arquivista e você não sabia. E segue Sampa, que Sampa tem de tudo. E segue Sampa, que Sampa nos dá de tudo. Só que, dona de si, do seu corpo e sua vontade, ela não se derrama. Sampa não é espalhafatosa, apenas espalhada. E nos espelha, a todos que quisermos. Como quisermos, quando quisermos. Deixando-nos, a todos, com a cara dela.

Vambora? [clipe de “Amanhecendo” (Sinfonia Paulistana), do Billy Blanco]

IV.

Municipal

Sampa, te amo.

Meu norte, minha vela, meu prumo,

porção enorme do meu inventário.

Sem você, cosmópole, eu sumo.

E não será assim, de longe, que vou contar nossas mazelas.

Hoje é seu, o aniversário.

Páteo do Colégio e 460 anos
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Dois anos depois…

… um post aqui publicado (“Cracolândia”. Qual?) volta a ser procurado e lido. Muito provavelmente por causa do título e pela atual movimentação em torno do assunto.

O crack é uma droga, em muitos sentidos. Existem muitas outras drogas e muitas delas são usadas por gente que se acha acima de qualquer suspeita. Inclusive que se acha acima da suspeita de que seja um dependente de drogas. Mas, então, o que dizer das ritalinas, dos êxodus, das fluoxetinas, dos paracetamois e dipironas, dos descongestionadores nasais e das nicotinas? Dos rivotris e tegretois, dos dormonides, serenus e toda a corja?

Bem, só vim aqui pra dizer que o cara em que votei, no final do mesmo ano em que me indignei com as balas de borracha no corpo e na alma dos já frágeis dependentes de crack, foi eleito. E, desde então, resolveu escutar as pessoas envolvidas diretamente na situação dos habitantes daquele planeta imaginário, muito mencionado pelos que lá nunca foram: a “Cracolândia”. Escutou dependentes e trabalhadores sociais os mais diversos, que atuam nesse campo. E, então, algo novo aconteceu. Está acontecendo: dignidade e respeito, no lugar de bala de borracha e desprezo.

Daí, só queria fazer umas perguntinhas pra quem acha que pode esticar o dedo, confortável e estrategicamente posicionado atrás de um monitor ou diante da tela de seu gadget predileto, para criticar aquilo que os políticos de sua preferência ideológica nunca fizeram quando podiam – e deviam – ter feito e para falar daquilo que bem possivelmente não entende, nem quer entender.

Quem quiser que responda. Ou que comente, lá no lugar dos comentários. Vou gostar de ler. Lá vai:

1) Que tipo de tratamento você prefere receber, se for o alvo da intervenção do poder público? Justifique sua escolha.

a) Prefere ser tratado com respeito e dignidade, receber proposta de trabalho, roupas, remuneração e tratamento médico ou

b) Acha melhor ser tratado com desprezo, aviltes e balas de borracha (ou de fogo, se bobear)?

2) Você acredita haver situações que justificam tratar cidadãos de maneira desrespeitosa?

a) Sim. (Justifique sua escolha)

b) Não. (Justifique sua escolha)

c) Em termos (Explique os motivos)

d) Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. (JUSTIFIQUE SUA ESCOLHA)

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De destinos, helenas e natais

 

Fosse apenas um nome.

Um personagem sem rosto. Sem voz.

Talvez uma ficção, um ideal de eu.

Um projeto de ser.

Um medo. Ou assombração.

Um incompreensível segredo.

Um caudaloso rio, de Oxum.

Um penetrante corte, de Ogum.

Fosse somente o tempo.

O espaço virtual. A eletrizante novela.

O calabouço da espera.

Fosse a mentira, a quimera.

Fosse o retorno da vela.

Ulisses. Penélope. O fio.

De Ariadne, o touro.

Fosse a voragem de Cronos.

O raio e o falo de Zeus.

Mas não.

 

Foi só uma frágil textura.

Nas mãos de Moira, escura.

Orestes antes de Atena.

Tróia antes do fim.

Morte em pleno palco.

Corte abrupto de cena.

Godot se rindo de mim.

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