“Cracolândia”. Qual?

Desde o momento em que tive acesso à primeira notícia sobre a ação policial que vem ocorrendo naquela região de São Paulo conhecida por um nome que parece querer resumi-la a isso – “Cracolândia” – venho tentando conciliar impulsos pessoais bem contraditórios que identifico em mim.

Não, não se trata, em hipótese alguma, de qualquer concordância com os “métodos” utilizados. O que vi, até o momento, permite-me dizer que essa parece ser a política pública preferida pelos atuais governos, municipal e estadual. Sem consulta aos organismos, profissionais, técnicos, especialistas que atuam/militam na área; sem planejamento; sem respeito. E esse fato, por si só, é grave. Grave o suficiente para não o deixarmos passar batido, nas discussões que logo logo farão parte do debate eleitoral que deve tomar conta d0 cotidiano da maioria (quer ela queira/goste, quer não), nos próximos meses, à medida que a data das eleições municipais se aproximar. 

Os impulsos contraditórios ficam por conta do meu intenso desejo de estar lá, de conversar pessoalmente, de participar dos coletivos, das reuniões, das discussões e ações que vêm sendo desenvolvidas e planejadas por colegas, amigos, companheiros que já arregaçaram as mangas e foram, senão para as ruas da região, para os foruns de discussão, mobilização, articulação. E da pergunta, que mal pude me responder, por todos esses dias, mas que se multiplica, insidiosa, nos discursos antagonistas: “Por que é que só agora, que estão fazendo alguma coisa, que vocês querem defender os direitos dessas pessoas?”. Confesso que ensaiei responder, aqui, mas não gostei de tê-lo feito, de modo que apaguei o que estava escrevendo.

Não entendo a pergunta acima como uma iniciativa ou um pensamento individual, isolado. Tampouco a/s possível/is resposta/s a ela. Então, decidi não respondê-la sozinha e, sim, pela voz de diversos outros. Até porque, amigos, creio que a informação de qualidade só tem a contribuir com a reflexão crítica e o debate sobre questões que afetam – sim, afetam, mesmo que você queira imaginar que não – nossas vidas. No cotidiano.

Por isso, pra mim, “Cracolândia” é um lugar que não existe. O que existe, lá, são pessoas. Em situação de miséria, abandono social, negligência do Poder Público. Em situação de humilhação, constante, agora exposta em praça pública. Agora dispersada a bala. Não importa que tenha sido de borracha. Machuca, estraga, dilacera. Humilha. Olha isso:

Veja mais aqui, se tiver Facebook.

Há os que acham que tudo bem violar mais um pouco o direito desses cidadãos (sim, cidadãos, com os mesmos direitos que temos nós e nossos filhos! Dá uma olhadinha logo ali, no comecinho da Constituição Federal, artigo 5). Há os que sentem na carne, como se fora consigo ou com algum dos seus, a dor e o sofrimento impostos como “política pública”, a pessoas que já se encontram detonadas, humilhadas, machucadas, alijadas de seu direito a uma vida digna; coisa com que todos nós sonhamos e contamos.

A propósito, há 13 ou 14 dias, não era isso o que desejávamos aos nossos queridos? Ao mundo, às crianças, aos velhos, aos miseráveis, a… não era um Feliz Ano Novo o que queríamos, então? Ou estávamos só brincando e reproduzindo um rito sem sentido, entre nós?

Tá bem. Fico por aqui. Sem anestesia. Lembrando dos olhos brilhantes, do rosto escavado pela magreza e profundamente assustado da última usuária de crack com quem estive, me dizendo: “Eu quero me tratar, mas não sei onde, não sei como! Me ajuda?!?” Lembrando da sensação da sensação de impotência que dá. Minha, dela, misturadas. E do seu possível antídoto: o pedido de ajuda… quando respondido.

No próximo post trarei links para artigos, sites, manifestos, documentos de interesse.

EM TEMPO: Aceito críticas e implicâncias. Por favor. Ninguém encontra saída para um problema social tão complexo sem dialogar, trocar ideias, saberes e experiências.

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Sobre lifega

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