Eu tenho um cão.

Nunca tive, antes.

Eu o acho muito mais marley que o Marley do americano, lá. O rabo dele não derruba tudo o que tem na mesinha de centro. Não tem mesinha de centro. Nem de canto. Ah, mas a mesona, a da cozinha, ele já derrubou, com tudo o que havia em cima. Não sem antes ter roído os quatro pés e as bordas, sem contar o rejunte dos azulejos e as esquadrias de alumínio, na época em que trocava os dentes.

Um dia foi comigo visitar minha irmã, que queria conhecê-lo. Enganchou o rabão no fio do telefone sem fio. Prometi repor o que quebrou; coisa que não fiz. Acho que esqueci. Ela não ligou. Não sei se pelo rabão, por esquecimento ou porque não ligou, mesmo. Mas o telefone, esse ficou mudo.

Quando chego em casa, lá está ele, com cara de quem acabou de acordar, como se estivesse perguntando: “Ué, já chegou?”. E pensa que eu acredito. Claro que eu acredito. Ele dorme, privilegiado, milhões de horas mais que eu. E à noite vela meu sono. Dia desses acordo com uma sensação estranha e, do meio da escuridão do quarto, distingo uma sombra preta e orelhuda me fitando, imóvel. Óbvio que gritei, enquanto o corpo caía de volta ao colchão. Óbvio, tive que ir até a área de serviço acalmá-lo e convencê-lo a voltar pra perto, um lugar mais quente.

Aprendeu a pedir exigir carinho: enfia o focinho foção por baixo do meu braço, em geral preso ao mouse, e empurra minha mão prá sua cabeça. E ai de mim se não atendo. Suspira profundamente, geme, bufa… e deita-se sobre as patas dianteiras, olhando para mim. Ou, então, para ao meu lado e fica imóvel, me olhando e arfando e arfando e arfando. Isso quando não quer brincar. E vem, com seus brinquedos – os mais indestrutíveis que consigo encontrar e adquirir – babados, esperando pacientemente que eu os tire de sua boca e corra dele, para ele correr atrás de mim.

Não que não saiba latir. Late que é uma beleza. É, coitado, um pouco reprimido por sua dona, mas é que não é fácil se acostumar com os latidos de um pastor alemão às quatro da matina, quando os vizinhos que gostam de balada chegam, falando alto.

Há inúmeras outras coisas que um cão faz e a gente, quando tem um, adora que ele faça. Menos, claro, juntar as pernas das visitas, correr atrás do rabo ou comer o próprio cocô. Essa última não consegui convencê-lo, nem com pimenta, a não fazer. Culpa dos fabricantes de ração super premium, dizem os cinólogos, cinófolos, cinologistas… er… cinofilistas. (Valeu, São Gugo!)

Enfim, eu tenho um cão. Não é muito,  mas já faz um tempinho.

Desde então, nunca mais sofri de risíveis amores.

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Sobre lifega

Ande um pouco comigo, antes de me perguntar quem sou.
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