Carta a uma amiga que cedo se foi

Querida Pat,

Acho que você saiu menos apressada, da última vez em que ficou em casa. E justo naquele dia eu estava zonza de sono, por causa de um remédio, uma coisa lá pra tentar menos dor. Física. E justo naquele dia você estava a fim de que a gente fosse tomar café da manhã na padaria, coisa que você vivia dizendo achar o máximo, entre nós, paulistanos.

Sabe, ficou deslocado no tempo – no meu tempo, nove meses depois – o tempo da sua partida. Sua saída abrupta. Não deu tempo de nada, nem de a gente se despedir direito. E a gente era assim. Tudo meio instantâneo. Nossa amizade, nossa afinidade, que eu lembro, foi instantânea. Nossos encontros, nossas conversas, eram tipo intensos, porque os sabíamos ligeiros. O tempo passava ligeiro e a intensidade preenchia tudo. Acho que a gente passou o tempo todo se encontrando como se fosse óbvio e cotidiano e quase não se despedindo direito, nunca, porque a gente – claro – ia se ver logo mais. Mesmo quando demorava meses; mesmo quando demorou anos.

E foi nessa calma, nessa confiança, que deixei o tempo passar. Passar tanto ao ponto de não estranhar você não responder ao meu convite para um rito de passagem que você já tinha feito e bem sabia como era. Sei lá, pensei talvez que seu endereço eletrônico havia mudado. E, sem tempo, não fui checar. Sem tempo. Sem tempo. Sem tempo.

Temos, alguns de nós, vivido a vida com pressa demais. E pra quê? Será que no fim não nos arrependemos de não termos dedicado o tempo às coisas e pessoas que nos importam de fato? A gente imagina que as coisas e as pessoas que amamos estão lá, congeladas, no mesmo lugar em que as deixamos da última vez. E quando, de repente ou por ocasião de algum evento, bate a saudade e a gente estende a mão, certa de que vai encontrar o que estava ali, do nosso lado… a gente constata que o tempo passou. Passou e levou consigo o que gostaríamos de eternizar, congelar, paralisar, sei lá.

Agora não dá mais pra te dizer o óbvio; pra te falar de quanto o seu sorriso e a sua presença me fizeram falta nos tempos duros que atravessei e, enfim, creio ter vencido. Pra te dizer que precisava, de novo, tomar café à beira do rio, em um fim de tarde esplendoroso; dançar e cantar e beber e suar até não poder mais, em uma dessas coisas que hoje eles chamam de balada; estudar um texto difícil até ele começar a ser inteligível; dar risada à toa, até todo mundo começar a olhar; comer um peixe fresco à beira do mesmo rio, quilômetros abaixo, em companhia de gente amiga, sedenta por construir conhecimento vivo, até alguém lembrar que tinha que trabalhar no outro dia; escolher e arrumar o lugar em que você iria se deitar pra gente ficar conversando até cair de sono…

Agora só dá pra deixar registrada, aqui, minha perplexidade. Porque você nunca combinou com coisas paradas, definitivas, sem volta. Você não combina com a morte, Patrícia. Por isso, vamos combinar: quando bater a saudade, vou estender a mão e brindar. À sua vida e às marcas que você deixou por aqui, tão doces, tão alto astral…

Você passou ligeira pela existência, minha amiga, mas logo se instalou na minha história. E é onde vai ficar, permanecer. Dinâmica, alegre, sorridente e feliz. Eternamente, enquanto eu durar. (E a gente nem precisa dizer que a vida é provisória).

Patrícia Regina da Matta Silva (1965-2010).

Psicóloga; mestre em Comunicação e doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano; docente da Universidade Federal Fluminense – Polo Universitário de Rio das Ostras. (Veja Currículo Lattes completo). Autora de inúmeros trabalhos e artigos, dentre eles o capítulo “A meninice e a institucionalização da situação de rua: práticas institucionais e subjetividade”, publicado no livro (esgotado) organizado por Sidney Shine – Avaliação psicológica e lei – da Casa do Psicólogo. [ver referência completa logo abaixo]

SILVA, P. R. M.   A meninice e a institucionalização da situação de rua: práticas institucionais e subjetividade. In: SHINE, S.K.. (Org.) Avaliação psicológica e lei. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005, p. 113-157
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10 respostas para Carta a uma amiga que cedo se foi

  1. Roseli Silva disse:

    Lígia… linda homenagem. Compartilho um pouco dessas suas lembranças de sua amiga querida, com quem tive o prazer de cruzar rapidamente pelos caminhos da vida.

  2. Livs disse:

    Lindas e tocantes as sua palavras, Lígia. Nesse mundo corrido, onde enfiaram em nossas cabeças que não temos tempo, que tudo precisa ser rápido pois “a fila anda”, deixando pra trás os que se demoram um pouco mais em alguma idéia ou pensamento, esquecemos de conviver o tempo devido e necessário com aqueles que gostamos – rindo, jogando conversa fora, fazendo nada juntos – apenas apreciando a companhia um do outro, numa tarde morosa e cheia de preguiça, observando o movimento da rua. O tempo é curto e priorizamos as obrigações que nós mesmos nos impomos! Qdo nos damos conta, quem amamos não está mais aqui, restando-nos apenas as obrigações de sempre….que, quando nós partirmos, outros assumirão…

  3. Vivi disse:

    Aconteceu algo semelhante comigo em julho. Foi com meu primo dos EUA, 5 anos mais novo que eu. Quando recebi a notícia via e-mail, abafei um grito levando a mão à boca. Choque, perplexidade. Ainda não escrevi carta aos irmãos e irmãs, falta-me força, mas a sua carta é inspiradora. Obrigada.

  4. simone disse:

    Amei. Nossa não sabia que você não tinha sido avisada. ninguém foi né? Saudades dessa amiga maravilhosa. Um brinde!

  5. Pingback: 27 de novembro | Você já foi no blog dela?

  6. reinaldo disse:

    Linda homenagem!

  7. Romana disse:

    Bom dia. Eu fui aluna da Patrícia da Matta no ano de 2001, na faculdade de psicologia da UNISAL em Lorena. Sempre me lembrei dela com carinho, pois era uma pessoa muito carismática, atenciosa, ótima ensinadora e amiga. Frequentava os churrascos da nossa sala como se fizesse parte da classe. Por sempre me lembrar de pessoas importantes e legais da minha vida comecei a pesquisar com o intuito de encontrá-la e tornar a ter contato, mas, infelizmente, me deparei com essa carta, e mesmo o ocorrido tendo acontecido há 5 anos, hoje fiquei extremamente triste ao saber. Ainda me lembro com clareza de sua voz e de sua risada. Queria saber o que houve com a Patrícia, se não for incômodo informar. Meus amigos da faculdade também ficarão muito sentidos.

  8. Goretti disse:

    Hoje, dia de Natal, me lembrei muito de minha melhor amiga de faculdade, com quem conheci Belo Horizonte, São Paulo, Paris e Madri. Me deu uma saudade muito grande, e me identifiquei na sua carta. Você a traduziu na sua escrita, um anjo que passou pela terra.

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