Palavras (*)

Faz menos de um mês que postei algo, aqui, pela última vez. Mas, para um blog, isso parece uma eternidade. Coisas de internet. Vou escrever, qualquer hora, algo do tipo “A internet e seus tentáculos virtuais”. Pensando bem, não vou. A essa altura alguém já o deve ter feito. Isso aqui é muito rápido. A coisa instântanea do mundo virtual. Dos fazeres virtuais. Ou até do mundo do corpo presente, com suas também instantaneidades, mas sua completa virtualização.

Equivoca-se, no entanto, quem defende que mundo virtual e redes sociais é coisa de agora, depois da internet. Os correios existem há muito, muito tempo. As declarações públicas de currículos sumários também. O que difere, completamente, é o tempo que se leva para obter uma informação. Só que a multiplicidade de entradas “mais do mesmo” e a baixa credibilidade das fontes é algo pouco discutido, ao meu ver.

Sempre me lembro do filme “Nunca te vi, sempre te amei” (veja sinopse aqui), em que aquelas duas pessoas se correspondem ao longo de décadas e criam um laço que… Bom, melhor ver o filme, quem não o fez.

O argumento é bem esse. Quer coisa mais virtual que as palavras? E quer coisa mais concreta do que o que podemos fazer com elas? Por seu poder, criamos e destruímos crenças, práticas, climas, reputações, e o que mais vier pela frente. É uma questão de saber manejá-las, melhor ou pior.

Muitas vezes, amigos meus que gostam muito de ler e escrever – alguns deles fazem disso sua profissão – se queixam, como também eu, da escassez de pessoas que tratam bem a nossa língua, ao escrever e falar. Acho, entretanto, que há um fator geracional, nisso.

As novas gerações – e estou falando de um ponto de vista bem viesado: paulistana, final do ano 10 do novo milênio, classe média ou remédia que vai à Universidade, essas coisas – parecem cada vez menos interessadas em “perder” seu tempo com uma boa leitura do que as mais velhas. E não se pode responsabilizar a produção de livros, a falta de bons autores ou uma suposta preguiça por parte da moçada. Ou, ainda, atribuir-lhe uma espécie de ignorância atávica.

O fato é que os tempos são outros. Os meios são outros. Os livros, outros. As palavras, outras. Muito se fala que para lidar bem com as palavras é bom ler bastante. Aumenta o vocabulário e diminui a dificuldade com a face oculta da língua, a saber, sua aspereza quando é imposta como a “norma culta”, escrita. Se assim fosse, ler seria tudo de bom e tava resolvido: todos saberiam lidar bem com as palavras.

É certo que ler um livro pode ser bem mais que ler um livro. Pode ser um jeito de começar o aprendizado inevitável de ler o mundo. Mas não é o único. Ler o mundo não é, nem pode ser, uma habilidade que se quantifique ou que se obrigue a ter. Ler o mundo, escutar as pessoas, ler as cenas dos cotidianos que nos afetam… é prática que pode ser feita com maior ou menor consciência de que a praticamos.

O que não dá pra esquecer é que, seja como for, uma hora ou outra, somos sempre chamados a comunicar, traduzir o que vemos, interpretamos, construímos ou destruímos na virtualidade das nossas cabeças pensantes. E na concretude das nossas relações. Tudo isso é feito com palavras. Vindas de livros ou de outras bocas. De gente culta, da televisão, do povão, da internet, da nossa família.    

São elas, então, que nos acodem. Se são boas, estranhas, raras, sem sentido, justas, duras, precisas, temerárias, inteligíveis, inadequadas, convincentes, bobas, bonitas… não importa.

É com elas que fazemos nossas vidas. É nelas que somos quem somos.

(*) Um tema desses dá post que não acaba mais…!
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2 respostas para Palavras (*)

  1. Liv´s disse:

    Realmente, as redes socias já existiam há tempos e tempos atrás! Eu mesma, nos meus 15 anos, por aí, me correspondia (por carta, claro) com um rapazinho estadunidense, daqueles típicos, cara de nerd, óculos de grau imenso, e doido para comprar um daqueles carros enormes e velhos! Nos conhecemos por meio de uma espécie de clube internacional que “conectava” (!) amigos, descoberto por uma amiga Conversamos por um bom tempo!
    Claro que tudo era mais lento, mas não por isso, ruim! Na verdade era muito bom…

  2. Roseli Silva disse:

    Belo texto! Minha palavra preferida, ultimamente, é resiliência…

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