20 de Novembro – Dia da Consciência Negra

Celebrações nunca são unanimidade, ainda bem.

No caso da celebração do dia de hoje, a unanimidade em torno do que se deve celebrar também não existe. Se olharmos pelo ângulo das lutas pela inclusão do negro na sociedade, temos o que celebrar e não temos o que celebrar.

Se olharmos pelo ângulo histórico o que os negros sofreram, de forma mais explícita, durante o período escravista no Brasil – esse crime hediondo que jamais se apagará – temos e não temos o que celebrar.

Seja como for, a dor e a vergonha por esse “borrão”, como disse Castro Alves, não são de anestesiar. São ferida sempre aberta. E voltam a doer quando os olhares são de soslaio e detrás do vidro do carro, para uma criança negra pedindo dinheiro nos faróis; para um ou dois garotos negros que vêm na rua em nossa direção, pedir uma informação; quando se tenta proibir os cultos afro com justificativas estapafúrdias (leia aqui o que os vereadores de Piracicaba aprovaram); quando um policial branco aborda um estudante negro tratando-o como criminoso e etc., etc., etc.  

Por isso, talvez a  melhor forma de nos celebrarmos a data de hoje – todos nós: negros, brancos, índios; todos nós: brasileiros – seja relembrarmos, sem nada esquecer, como tudo começou. E, quem sabe, contar aos nossos filhos, netos, sobrinhos, tudo o que aprendemos nesse longo caminhar. Ou, ainda, seja aprendermos a valorizar a riquíssima e diversificada herança que carregamos, sem tentar, com isso, negar ou minimizar a imensa vergonha de termos tal mancha em nosso passado ou o nosso preconceito racial enrustido.

Afinal, o preconceito se alimenta, dentre outras coisas, da falta de informação e da ausência de memória.

Pessoalmente, acho que uma boa forma de celebrarmos o dia de hoje é refletirmos sobre o que sentimos se pensamos o quanto somos atravessados pela herança trazida pelo negro. E é com muito orgulho que reconheço em mim, na minha vida, neste corpo cuja pele é branca, meu pertencimento à raça negra. Meu pertencimento à negritude, no mínimo por ser brasileira. E isso, convenhamos, não é pouco.

Ou vou precisar falar do samba, da feijoada, da macumba, do futebol, da batucada, da gíria, da malemolência, et cetera?

Abaixo, posto o que encontrei no blog do Augusto da Fonseca, Festival de Besteiras na Imprensa:

Um blog político que toma partido

Navio Negreiro - imagens reais

O vídeo abaixo mostra o poema de Castro Alves, declamado por Paulo Autran, com cenas de Amistad (Steven Spielberg)

***

Eu, filho, neto, bisneto, tataraneto de portugueses, neste dia, peço perdão aos negros africanos pelo crime hediondo cometido pelo país de origem dos meus ancestrais.

Anúncios

Sobre lifega

Ande um pouco comigo, antes de me perguntar quem sou.
Esse post foi publicado em Brasileiros, Cultura, Inclusão e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para 20 de Novembro – Dia da Consciência Negra

  1. Leandro disse:

    Pois é Ligia, infelizmente a dimensão da influencia da cultura negra ainda é subcompreendida pela maioria dos brasileiros, que recorrem a esses clichês para defini-la ou caracterizá-la… mas como vc bem escreveu, a herança negra é muito mais do que isso, é algo que nos é inerente, seja por aquilo que é digno de celebração, de reflexão sobre o cruel passado (ainda tão recente) ou de atitudes no presente (que em muito nos deixam presos àquele passado)…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s